Já vou começar avisando que não vou falar especificamente de política. Embora, sim, possa conectar. Os ânimos estão tão à flor da pele e é até necessário avisar. Eu sei que está difícil, mas precisamos nos acalmar. Respira! O jogo não é só agora. O jogo é sempre. E aprendermos a não ser manipulados é uma das estratégias mais importantes. Aqui quero falar mais especialmente de manipulação nos relacionamentos.
Podemos entender a manipulação como algo estritamente ruim. Agora como mãe, por exemplo, fico pensando qual a medida do meu direcionamento na vidinha de Antônio. Já acho lindo perceber a revolta e a resistência dele. Perceber um ar de poder e autonomia. Mas, obviamente, eu preciso direcionar. Manipular é direcionar com base nas crenças ou intenções de quem faz.
Manipulamos de forma consciente ou inconsciente. Só achamos que estamos salvando o outro. Fazendo o melhor. E o abuso vem disso. Levamos para a vida adulta a forma como reagimos à manipulação dos nossos pais na infância, aceitando-a ou nos contrapondo a ela. E não estou dizendo que quem aceita manipulação na infância aceita na vida adulta. Não é uma equação tão simples. Homens se tornam manipuladores bem treinados porque copiam a estratégia de manipulação de outros homens.
Eu, por exemplo, sempre fui mais reativa, igual a Antônio. Conseguia ler as intenções ocultas e argumentar. Embora tenha esse perfil, não significa que esteja imune. Ainda hoje trabalho na análise e em outros processos terapêuticos para me livrar de culpas. Inclusive, por ter escolhido caminhos diferentes de quem veio antes. E há sempre um esforço para me recolocar nos meus desejos, nas minhas vontades, já que há uma voz interna (a que escutei na infância) que diz que estou errada.
Mesmo sendo reativa, já vivi uma relação abusiva cheia de manipulações. E o tempo que estive nela não foi por não perceber a manipulação. Foi pela culpa. Pela vontade de salvar o outro. Percebe aqui na vida adulta a repetição do mesmo mecanismo que eu aprendi na infância? Enquanto não há consciência, nosso inconsciente repete. Por isso, sou muito fã da análise e de processos terapêuticos que nos trazem essa clareza.
No meu atual relacionamento temos como casal trabalhado esse tema a partir de outras perspectivas na terapia. Percebo que muitos homens projetam a manipulação vivida, principalmente com suas mães, nas suas companheiras. E há também a crença machista de que fazer o que precisa ser feito é estar obedecendo à mulher, sendo controlado, pau mandado. São muitos complexos.
Quando saí dessa relação abusiva, demorei alguns anos para recuperar meu poder e segurança que eram naturalmente meus no início da vida adulta. Para isso, sinto que fiz boas escolhas. Vivi um processo profundo de descentralizar homens e o amor romântico como objetos principais. Foquei na minha carreira, fiz doutorado, estudei cinema, comecei a produzir conteúdos na internet e coloquei meu eu escritora no mundo. Naturalmente, algumas portas foram abrindo, como meu trabalho com Perfeitos que surgiu meio do nada.
O meu negócio com os Perfeitos aconteceu porque eles refletem meu caminho na busca da autonomia sexual. Até os 30 e poucos anos eu, de verdade, não tinha conseguido descentralizar homens porque não me imaginava ficando sem sexo. Muitas de nós fizemos um percurso de só viver a sexualidade através da presença do outro. E isso nos coloca num lugar de dependência. Não por acaso, muitas mulheres conseguem se separar depois de conhecer um Perfeito. Outro dia escrevi sobre isso.
Hoje sinto que já ajudei muitas mulheres no tema da sexualidade. E tenho sentido vontade de explorar mais fortemente outra dimensão da autonomia, que é a emocional e financeira. Não temos como alcançar um lugar de poder, de não ceder às manipulações, de nos sentirmos seguras quando todos ao redor dizem que estamos erradas, enquanto o nosso ser não estiver bem estruturado. E sendo mulher, isso não é tão simples.
Às vezes, podemos entender a autonomia emocional como não se relacionar com homens se você é heterossexual, por exemplo. Essa visão, talvez, seja simplista. A autonomia é, na verdade, ter o poder de fazer o que se quer, da forma como se quer, sem necessariamente seguir princípios ou ideologias.
Dentro disso, ficar em celibato ou não se relacionar amorosamente com homens pode ser uma escolha racional para você. Em alguns momentos da nossa vida, inclusive, essa pode ser a melhor escolha. Por quase 10 anos, esse foi o meu caminho. Por vezes, vamos precisar desaprender um lugar comum de estar com alguém e construir outra trilha neural. E quando você estabelece a segurança de estar só, há também um lugar de maior poder quando você decide estar com alguém.
E o mais difícil nesse processo não é estar sem o “amor” de um homem. É tentar não projetar uma vida com qualquer um que te desperte o mínimo interesse. Fantasiar relações é uma trilha que nosso cérebro está habituado a percorrer. Culpo as novelas, os filmes românticos e a Disney. Essa é uma das armadilhas mais perversas presentes no inconsciente coletivo feminino.
E também de quem quer sair dela. Porque muito facilmente passamos de projetar sonhos e só enxergar desgraças. Precisamos ter cuidado para não cair em outra polaridade. E não que as desgraças não possam existir. Elas existem.
O lugar da autonomia e do nosso poder mora no respeito ao nosso ser e às nossas vontades. Como, por exemplo, a vontade de casar, de ter família, ter filhos se essa for a sua. Sabemos que parte desses desejos é projetada, mas vivemos nessa matrix. Não precisamos nos culpar por isso. O que precisamos é de lucidez para não nos tornarmos vítimas.
Hoje vemos vários movimentos nas redes que defendem o resgate da energia feminina. Que manipulam mulheres para que elas entendam que seus problemas existem por terem se tornado “masculinas”. Num caminho contrário, outro dia, vi um corte do podcast do Bom dia, Obvius no qual Marcela Ceribelli, falava que era constantemente questionada por ter escolhido ser mãe. Percebe que há vários movimentos que tentam suprimir nossa autonomia? O nosso poder de escolha?
Com isso, não digo que se relacionar com homens seja fácil ou seguro. Sendo mulheres, invariavelmente vamos sair perdendo. Na minha relação, há uma disputa constante para que haja uma divisão justa entre os pesos de cuidar de um lar e de um filho. Quem deseja entrar numa relação precisa, de alguma forma, ter consciência, racionalidade, de como se configuram as relações e perceber onde ganhamos, onde perdemos e como encontraremos caminhos possíveis. Não é fácil.
Esse é um tema muito extenso e eu não seria capaz de encerrá-lo aqui em tão poucas linhas. O que posso dizer é que precisamos de uma perspicácia muito refinada para não irmos com a manada, com as narrativas dominantes e para não mergulharmos nas inseguranças geradas na nossa infância. É preciso ter uma segurança profunda que, nascendo mulher, repito, não é tão fácil. Mas há caminhos.
E não se esqueça da segurança financeira. Estamos na matéria. Quando o seu ser está bem estruturado e quando você tem uma reserva gordinha, ter poder e perceber seu poder fica bem mais fácil. Como estou em busca desse caminho, posso te dizer: há um monte de culpa, inseguranças e questões da infância que precisarmos trabalhar para alcançar a segurança financeira. Há muitas vozes internas que dizem que não podemos. Dá um trabalhinho para nos livrarmos delas, mas é possível.






















Compartilhe:
Não foi só o identitarismo que fez a esquerda perder: também foi o ego e a economia