É muito triste que tenhamos nos tornado um país extremamente polarizado. Com o advento das redes sociais e como se organizam os discursos (as narrativas), esse, infelizmente, é o movimento que tem se instalado em quase todo o globo. E as narrativas a que temos acesso, sejam elas verdades ou não, formam nosso inconsciente, nosso consciente e nossas ações. Consequentemente, a forma como votamos.
As redes sociais e a tecnologia também trouxeram para as pessoas comuns algo inédito na história da humanidade: o poder de compor e embalar narrativas. E por mais que tenhamos acesso muito mais fácil a verdades factuais, temos acesso facilmente também a narrativas inverídicas, a ideologias sem base científica. A esquerda, a extrema esquerda, a direita, a extrema direita, todos os campos, produzem e difundem inverdades, ideologias que nos desviam da verdade.
Culpamos os EUA, a China, o comunismo, o capitalismo enquanto não olhamos para uma realidade material bem na nossa frente: somos um país pobre, em desenvolvimento, mas que nunca se desenvolveu. E não são todos que vão ter condições de olhar para a história e ponderar por que chegamos até aqui. O desejo que move ambos os lados é a mudança. Principalmente, a mudança econômica. Queremos uma vida com mais conforto e abundância. Esse é o desejo da massa em ambos os lados.
Na nossa história, isso é fato, saímos da extrema pobreza, melhoramos nossas condições de alimentação, mas ainda falta muito. Vivemos uma era de ultra-exploração. Trabalhamos muito, ganhamos pouco, não temos segurança. E hoje, com as redes sociais, assistimos a muitos dos que vivenciaram as nossas mesmas condições, seja pobre ou classe média, ascender através da presença no digital. Ter um iPhone novo, poder viajar, ir a cafés e restaurantes da moda, é o desejo coletivo. Esse é o nosso tempo.
Você, na sua cadeira de intelectual e artista incompreendido, pode achar Virgínia e seus 56 milhões de seguidores fúteis Mas já parou para pensar por que essa narrativa de vida desperta tanta paixão? Ela foi uma menina de vida humilde, filha de empregada doméstica, que, através do seu trabalho nas redes sociais, muito antes de existir bets, prosperou, construiu família, patrimônio, visibilidade. Você pode julgar os caminhos que ela fez. Mas precisa entender que esse é o desejo de boa parte da nossa juventude.
A esquerda odeia Virgínia e odeia em si esse sonho que ela representa. O nosso ego quer constantemente nos colocar como superiores, salvadores, como aqueles que sabem. Pai dos pobres? Não sei se você percebe como isso está ultrapassado. Todos querem seguir seu caminho, colocar sua contribuição no mundo.
O PT emplacou de 2003 em diante quatro mandatos seguidos por conta da economia. Quando fiz mestrado e doutorado estudando cidade, entendi que o modelo central de desenvolvimento adotado priorizou a indústria da construção civil, exatamente como na ditadura militar. E embora trouxesse um giro na economia, a inflação e a crise na sequência eram certas. Ao me dar conta, lembro de ligar para minha mãe e dizer: guarde dinheiro! Uma das consequências mais amargas da crise desse modelo insustentável adotado é o bolsonarismo.
Para mim, como sociedade, nos falta um projeto claro de país. Definir qual caminho nos tornará um país rico onde todo o nosso povo terá condições de vida digna, possibilidade de conforto e consumo. Você pode espernear com base nos ideais que te regem, mas a verdade é que vivemos no capitalismo, vivemos numa materialidade difícil e queremos prosperar. Ter dinheiro e viver com conforto não deve significar culpa para ninguém.
Na história desse planeta temos exemplos, caminhos a serem seguidos. A história também mostra, porém, que isso não acontece de forma rápida. Para a mudança acontecer, precisamos de décadas de trabalho. E isso requer direção. Nas últimas décadas, não construímos essa direção ou as direções adotadas foram insustentáveis.
A forma como esse país se estrutura, não prioriza o florescimento da indústria, nem de empresas. Ao contrário, temos expulsado indústrias e falido empresas. E a culpa disso, sem dúvida, é da gestão dos entes federativos. Nas últimas décadas, o fato é: o maior poder esteve nas mãos do PT. Por que a esquerda acha legal odiar empresários? Isso não é uma estupidez? E aqui não digo que não deve haver regras ou que impostos não devem ser pagos. Pode guardar sua ideologia e ódio no bolso.
Vamos a outro fato: dos EUA à China, as empresas privadas e seus trabalhadores são peças essenciais para a economia. A riqueza, as criações e a tecnologia que as empresas privadas e seus trabalhadores produzem também são ativos importantes para o enriquecimento e a melhoria da qualidade de vida de um país. Não tenho dúvidas de que a esquerda perdeu nessas eleições por isso.
Por que é tão difícil entender que as empresas privadas são importantes e que, ao mesmo tempo, é imprescindível e urgente que tenhamos educação de qualidade, desenvolvimento da ciência e da tecnologia com apoio do Estado? Por que as ideologias de esquerda e direita nos fazem crer que uma coisa é oposta à outra?
Não é difícil perceber que, para garantirmos seguridade social por meio dos mais diversos programas que existem e devem existir, precisamos de um país que cresça por todas as frentes, enriquecendo. Não se faz nada sem dinheiro entrando. Como vamos ser um país rico, capaz de garantir seguridade social e oportunidades individuais de crescimento?
Eu não queria ter que votar em Lula. A política feita pelo PT tem alguma qualidade, mas profundos problemas. A questão econômica, a meu ver, é central. E esse último mandato foi decepcionante. Porém, é muito mais desesperador ver o bolsonarismo voltar ao poder. Temos provas concretas do horror que o governo do Bolsonaro pai foi não só na pandemia. Se você que está me lendo acha que esse é o melhor caminho, eu respeito. E espero, de verdade, que a errada seja eu. Afinal, todos queremos o mesmo: um país melhor.
Como disse Dilma quando era candidata à eleição: “Quem perder ou ganhar vai perder.” De um jeito ou de outro, somos nós que vamos perder. Na verdade, já perdemos. E pelo que os fatos concretos nos mostram, perderemos ainda mais com o poder nas mãos de Flávio Bolsonaro e dos homens sem caráter, corruptos e milicianos que usaram o nome de Deus em vão, a quem o bolsonarismo se alia e que representa. Esses homens não podem construir as mudanças legítimas que desejamos.
Independentemente do resultado dessas eleições, o que mais precisamos é nos unir como sociedade civil e pressionar o governo eleito, seja ele qual for, para que tenhamos um projeto de país e para que nosso futuro e direitos sejam garantidos. O Brasil é dos brasileiros. O presidente eleito pode ser o articulador. Mas quem tem o poder de fazer isso acontecer é o povo unido. Que a gente pare de se dividir. Que a gente não deixe esse ódio em jogo destruir nosso amado país.






















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